Maria Felipa: a mulher que derrotou soldados usando galhos de cansanção

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Cleidiana Ramos

Fotos: Divulgação

Novembro é um mês especial para a Bahia por conta da celebração da luta de combate ao racismo e valorização do patrimônio afro-brasileiro. Além de Zumbi, que é celebrado no dia 20, outras heroínas e heróis negros ganharam protagonismo em lutas de resistência misturadas a lances épicos, como Maria Felipa.

Nascida em Itaparica, Maria Felipa ainda causa polêmica devido à ausência de dados historiográficos precisos sobre ela, mas a oralidade já lhe deu materialidade que começa a ser reconhecida em algumas pesquisas fundamentadas. Sua história ganhou proeminência a partir do relato de Ubaldo Osório Ribeiro, avô do escritor João Ubaldo Ribeiro que, em seu livro Viva o Povo Brasileiro, inspirou-se em Maria Felipa para criar a sua forte Maria da Fé.

Diferentemente de Maria Quitéria e Joana Angélica, outras heroínas da Guerra da Independência do Brasil na Bahia, Maria Felipa era uma típica representante das camadas mais excluídas do povo baiano. Negra, vivia, de acordo com as versões mais aceitas, da coleta de mariscos na Ilha de Itaparica, um dos locais de combates entre portugueses e a resistência em favor da separação política do Brasil de Portugal.

Itaparica foi um dos locais da resistência contra a colonização portuguesa no século XIX. Foto: Ascom/Setur

Foi nesse contexto que o engenho de Maria Felipa fez o que as estratégias militares do lado brasileiro não tinham ainda alcançado: provocar a derrota da frota portuguesa.

Liderando um grupo formado por cerca de 40 mulheres, Maria Felipa se dirigiu até a praia onde os portugueses realizavam o cerco marítimo à Ilha. Sob suas ordens, as mulheres começaram a acenar em direção aos navios. Os homens imaginaram que era um convite para uma noite de relaxamento em meio a belas mulheres.

Empolgados, foram para a praia e elas, sedutoras, os convenceram a tirar as roupas. Assim que eles cederam puseram o plano em ação: atacaram os combatentes com galhos de cansanção, uma planta que causa coceira e queimaduras na pele ao mais leve toque. Com bordoadas seguidas com o uso da planta o sofrimento deve ter chegado ao ponto do insuportável. Enquanto isso, parte do grupo incendiou os navios portugueses em uma vitória decisiva para as tropas brasileiras.

Cansanção: a arma de Maria Felipa e suas companheiras.

Reconhecimento

Há pouco mais de uma década, a história de Maria Felipa ganhou maior repercussão. A Polícia Militar da Bahia (PM), por exemplo, tem um centro criado para ações e debates sobre gênero que leva o seu nome.

Como não se tinha informações mais precisas sobre Maria Felipa, a perita Filomena Modesto Orge, funcionária do Instituto de Criminalística Afrânio Peixoto, órgão do Departamento de Polícia Técnica da Bahia (DPT), elaborou um retrato baseado no imaginário popular sobre a heroína. A imagem é a que ilustra este texto.

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