Histórias do fotógrafo que documentou a virada do turismo baiano

0
67
Cachoeira tem belos cenários.

Cleidiana Ramos

Foto: Aristides Alves

Mineiro, o fotógrafo Aristides Alves, 68 anos, conhece cada pedacinho da Bahia, terra que adotou ao ponto de já se considerar um baiano nato.  O conhecimento sobre o território baiano começou a se formar em 1975, quando, no início da sua carreira profissional, foi para a Bahiatursa, que acabava de ser criada. A missão que recebeu foi registrar uma nova aposta de política pública: investimento no turismo para além de Salvador.

A oportunidade fez Aristides Alves conhecer Lençóis na época em que a opção de hospedagem na cidade, que hoje é um dos principais destinos da Bahia, se resumia a uma pensão.   “Quando eu entrei na Bahiatursa, a equipe que eu trabalhei estava encarregada de fazer o mapeamento de novos destinos turísticos. Um deles foi a Chapada Diamantina”, conta o fotógrafo.

Biólogo acabou, pelos caminhos da paixão pela imagem, chegando ao curso de jornalismo. Volta e meia se vê interagindo com as duas formações, como em livros que já preparou sobre a Chapada Diamantina. Embora muitas vezes prefira apenas o texto feito com a luz, típico da fotografia, Aristides tem paixão pela literatura voltada para a memória.

Aristides Alves: paixão pela fotografia. Foto: Bruno Reis

Ele já publicou livros como O Eixo de Oju que, acompanhado da exposição homônima encerrada em maio desse ano, celebra seus 40 anos de carreira. Para  A Casa dos Olhos do Tempo que fala da nação angolão-paquetan, o fotógrafo coordenou uma equipe multidisciplinar -formada por antropólogo, jornalista e biólogo- para completar seu ensaio sobre a saga do Terreiro de Mutá Lambô ye Kaiongo, liderado pelo tata de inquice Mutá Imê.

Em outro dos livros que organizou faz uma reconstituição da história da fotografia na Bahia, pois o campo da preservação memória é outra das suas paixões. “A memória é sempre negligenciada pelos poderes públicos. Também no caso dos acervos particulares não estamos em melhor situação na Bahia. Temos casos de jornais que acabaram e ninguém sabe o que aconteceu com seus acervos fotográficos”, diz.

Movimento  

Essa conscientização sobre a importância da fotografia  traz para  Aristides Alves lembranças de um momento especial que ajudou a construir: o movimento Fotobahia. Foi uma investida para a melhoria técnica, mas também política, inclusive na luta para que os direitos autorais passassem a ser considerados como também o crédito para os fotógrafos em publicações.  

“Nós estávamos em um período de ditadura militar. O Fotobahia foi a forma da gente se organizar politicamente e também conseguir algumas conquistas. Hoje é difícil imaginar, mas os jornais saíam sem foto assinada. O movimento foi também importante para vincular a Bahia a um movimento pela valorização do trabalho do fotógrafo que era nacional”, acrescenta.

Sempre a câmera

Mesmo com os celulares de última geração, Aristides Alves acha difícil que eles consigam substituir a boa companheira dos fotógrafos profissionais: a câmera. “O celular vai conseguir fazer imagens chapadas. Ele não vai evoluir muito além disso . Ele vai servir para uma documentação restrita no sentido dos planos e fundos, mas sem muito aprofundamento dessa linguagem”, analisa.

Em relação a uma linguagem que se consolidou com o surgimento dos smartphones- a selfie- o fotógrafo tem uma avaliação mais rigorosa. Para ele, a prática acaba distanciando o protagonista de viver cada situação especial como a passagem por um belo cenário ou curtir um show. Isso vale para quem exagera e acaba perdendo o bom senso.

“O problema é quando você acaba perdendo a possibilidade de curtir um momento. A pessoa vai para um show com o artista que gosta cantando ao vivo e acaba optando por filmar para ver depois perdendo a oportunidade de dançar, conversar. Isso com um resultado que vai ser péssimo: o palco vai aparecer pequeninho, a luz estourada, o som que não se pode ouvir. O mesmo pode acontecer diante de uma paisagem única”, reitera.

Maestria

Especialista em produzir fotografias, que parecem telas de pintura com sua combinação de cores e formas, Aristides Alves tem algumas dicas para quem se aventura em fotografar no território baiano conhecido por ter uma luz forte, o que às vezes não deixa a imagem com o resultado que se desejou.

“Realmente, a luz na Bahia é um desafio, mas os novos equipamentos oferecem algumas facilidades afirma. Por isso, para fotografar, é bom estar a horários específicos como ele explica no vídeo abaixo:

E para alguém que conhece tantos destinos na Bahia como ele, é possível escolher um preferido? Ele responde sem nem mesmo pestanejar: “São muitos lugares bonitos na Bahia, mas a Chapada Diamantina é a minha região preferida. Talvez por ter sido a primeira que conheci para além de Salvador”, diz.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here